O exemplo de Joaquim Barbosa
A respeito de Joaquim Barbosa podem-se discutir várias coisas. Suas
motivações, por exemplo: o que teria levado um jovem frustrado no sonho
de ser diplomata a jogar para o alto a carreira e querer se tornar
promotor? Era mesmo a Justiça seu objetivo?
Podem-se discutir os atos e comportamentos como ministro e presidente do
Supremo Tribunal Federal. Depois do anúncio da aposentadoria precoce,
diversos especialistas o fizeram. Se há, entre eles, quem tenha aprovado
a “obra” de Barbosa, ficou calado.
O máximo que se obtém é uma defesa entortada: “Agiu errado, mas queria o bem”. Era mesmo o bem o seu norte?
Suas motivações são assunto para psicanalistas. As coisas que fez e
deixou de fazer como magistrado devem ser interpretadas por quem entende
de Direito. Mas de uma coisa podemos estar certos: foi sábia a decisão
dos examinadores do Instituto Rio Branco que o consideraram inapto para a
diplomacia. Alguém calcula as confusões que teria aprontado se viesse a
ser embaixador?
Podemos também discutir as consequências de sua passagem pelo primeiro
plano de nossa sociedade. Não foi longa, mas acabou por se tornar
relevante. Merece ser avaliada.
Sua trajetória, está claro, só teve efeitos mais amplos por ele ter sido
transformado, com visível satisfação, em instrumento das oposições ao
“lulopetismo”, especialmente de seu braço midiático. Caso não tivessem
celebrado um casamento de conveniências, o impacto seria outro.
Sem o “julgamento do mensalão” ou na hipótese de que ele só ocorresse
depois da eleição deste ano, Barbosa seria de utilidade limitada. Apenas
mais um ministro do STF, sem nada que o destacasse.
O braço mais radical da mídia conservadora ofereceu-lhe o posto de herói
em troca da realização de uma tarefa. Seria recompensado se fizesse a
parte dele e punido se recusasse o papel. Que o digam as vaias
encomendadas contra Ricardo Lewandowski.
A cada vez que retribuía os carinhos recebidos ganhava novos mimos. Tudo
nele se tornou elogiável: a mise-en-scène, o modo de dizer o texto, a
expressão corporal, o figurino. Ganhou capas de revista, longas e
laudatórias reportagens na tevê, belas manchetes. Virou “o menino pobre
que mudou o Brasil”, o “responsável pela transformação do País”, e por
aí afora. Em troca, deu muitos presentes, nenhum tão vistoso quanto a
prisão dos condenados em 15 de novembro de 2013, levados a Brasília como
troféus da “limpeza ética” à sua moda. Naquele dia foi autor,
roteirista e diretor de espetáculo.
Seria exagero dizer que Barbosa trouxe o ódio, a truculência e a
intolerância para a política brasileira. Ou que foi ele quem fez nascer
esses sentimentos em uma parcela importante de nossa população. A
emersão de sua figura, fabricada por ele e a mídia conservadora, é
inegável, acompanhou e incentivou uma deplorável mudança em nossa
cultura política. Tornamo-nos um país onde alguns acham “normal” odiar
um adversário e sentir raiva de tudo, inclusive do próprio Brasil.
A violência saiu dos guetos neonazistas e das fanfarronices de
skinheads, espalhou-se e se achou legítima. Por que não seria válido
odiar se uma figura tão elevada da República não escondia seu rancor?
Por que um black bloc não poderia manifestar sua raiva quebrando coisas,
se regras “erradas” podiam ser rompidas por ele?
Há quem pense ter sido Barbosa importante no processo de valorização da
identidade negra no Brasil. Que poderá ser uma referência para crianças e
jovens negros, ensinando-os a enfrentar limitações e preconceitos.
Pena, mas é improvável. Nada há de construtivo no seu protagonismo. O
que poderia ter havido foi tragado pelo espírito de vingança, que, com o
histrionismo, tornou-se sua marca.
Resta a ilusão dos menos informados de que, “mal ou bem”, Barbosa teria
trazido uma contribuição moralizadora à política brasileira, fazendo com
que, “depois do julgamento do mensalão”, as coisas se regenerassem.
Nada menos verdadeiro. Nem antes, nem durante, nem após o julgamento
algo mudou, em qualquer partido ou nível de poder.
Ele não deixa qualquer legado que mereça tal definição.
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