quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Ilha da fantasia


Bernardo Mello Franco - Folha de S.Paulo
Desde a posse dos novos parlamentares, o Congresso não ficava tão cheio quanto na última terça-feira. Centenas de homens de terno e mulheres de salto alto cercavam deputados, entupiam corredores e se esparramavam nas poltronas e até no chão do salão verde.
A presença de visitantes pode parecer boa notícia, mas ninguém estava ali para protestar a favor ou contra o impeachment, a reforma política ou a redução da maioridade penal. O que os unia era um objetivo menos nobre: pressionar os parlamentares para engordar os próprios salários.
Em plena crise, sindicatos de servidores decidiram aproveitar a fragilidade do governo para arrancar aumentos muito acima da inflação. O mote da vez é vincular salários à remuneração dos ministros do STF.
Na terça, a Câmara aprovou em primeiro turno um gatilho que beneficia servidores da AGU, procuradores municipais e delegados da PF e das polícias estaduais. Os aumentos chegam a 59% em uma só tacada.
Hoje o salário inicial dos advogados da AGU é de R$ 17,3 mil. Pelo texto aprovado, os recém-contratados ganharão R$ 27,5 mil. É difícil imaginar uma profissão do setor privado que ofereça tanto dinheiro a quem está apenas iniciando a carreira.
Em um surto de responsabilidade, a Câmara barrou um segundo trem da alegria, que beneficiaria fiscais do trabalho, auditores da Receita e procuradores estaduais. Mesmo assim, as benesses aprovadas custarão mais R$ 2,4 bilhões ao Erário.
Ninguém é contra valorizar o servidor público, mas a mera discussão de aumentos tão elevados em meio à crise mostra que Brasília continua a se ver como uma ilha da fantasia. No Brasil real, milhões de trabalhadores sofrem com demissões, falências e reduções de salários.
O contribuinte que confia no STF para frear a farra com dinheiro público pode esperar sentado. Nesta quarta, os ministros da corte aprovaram a elevação dos próprios contracheques para R$ 39.293,28.

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